Como advertir funcionario por falta injustificada: guia CLT
por Bruno Vieira · 05 de setembro de 2026
Aprenda a aplicar advertência por falta injustificada com segurança: o que a CLT permite, como documentar, quando suspender e quando vira desídia ou abandono.

Como advertir funcionário por falta injustificada: guia CLT (com rotina de DP e modelos)
Falta injustificada não é só “descontar o dia”. Para a advertência se sustentar e o DP manter histórico, você precisa de três coisas: classificar a ausência, registrar no ponto/escala e documentar a comunicação.
Neste guia você vai ver:
- como separar falta justificada x injustificada (CLT);
- como fazer desconto do dia e do DSR com um exemplo numérico simples;
- como aplicar advertência verbal/escrita e organizar evidências;
- um checklist final (DP + gestor) para padronizar.
Regras rápidas (para não se perder)
- Classificação: só é falta sem prejuízo do salário quando se enquadra nas hipóteses do Art. 473 da CLT.
- Desconto: falta injustificada normalmente gera desconto do dia e pode gerar perda do DSR (Art. 6º da Lei 605/49).
- Histórico: repetição de faltas leves pode caracterizar desídia (justa causa) — Art. 482, “e” da CLT.
- Sumiço prolongado: a Súmula nº 32 do TST trata de presunção de abandono em situações específicas.
- Prova: registro de ponto bem feito e rastreável ajuda a comprovar a ausência; a Portaria MTE nº 671/2021 disciplina o registro eletrônico de ponto.
Fontes oficiais:
- CLT (Planalto): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452.htm
- Lei 605/49 (Planalto): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l0605.htm
- Súmulas TST: https://www.tst.jus.br/sumulas
- Portaria MTE nº 671/2021 (DOU/Gov.br): https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-mtp-n-671-de-8-de-novembro-de-2021-359094139
1) Falta justificada x injustificada: como decidir (Art. 473 da CLT)
O Art. 473 da CLT lista as situações em que o empregado pode faltar sem prejuízo do salário.
Na prática, a decisão fica assim:
- Enquadra no Art. 473 + empregado comprova quando necessário → falta justificada.
- Não enquadra (ou não foi comprovada) → falta injustificada.
Dica de rotina: não classifique “no chute”. Lance como “Falta” no dia e feche a classificação quando receber (ou não) a justificativa.
2) O que descontar na falta injustificada (dia + DSR) — com exemplo numérico
Quando a falta é injustificada, dois efeitos podem aparecer na folha:
- Desconto do dia não trabalhado.
- Perda da remuneração do repouso semanal (DSR), quando aplicável, conforme Art. 6º da Lei 605/49.
2.1 Mini-cenários: quando o DSR é perdido e quando não é
A Lei 605/49 (Art. 6º) liga a remuneração do repouso ao cumprimento da jornada na semana. Para evitar interpretação ampla demais, use cenários simples e documentáveis.
Cenário A — semana com falta injustificada (DSR pode ser perdido)
- Escala: segunda a sábado, DSR no domingo.
- O empregado falta na quarta, sem justificativa.
- Resultado no fechamento: desconta a quarta e, pela regra do Art. 6º, pode haver perda do DSR daquela semana.
Cenário B — semana com falta justificada (DSR não entra como “perda por falta injustificada”)
- Mesma escala.
- O empregado falta na quarta, mas a ausência se enquadra no Art. 473.
- Resultado: não trate como falta injustificada, então não aplique a perda do DSR “por falta injustificada”.
Importante: o que “vira” o DSR aqui é a classificação (justificada x injustificada) e o registro que sustenta essa classificação.
2.2 Exemplo numérico simples (dia + DSR)
Para um exemplo reproduzível, use valores redondos.
- Salário mensal: R$ 3.000,00
- Valor do dia (exemplo didático): R$ 100,00
- DSR da semana (exemplo didático): R$ 100,00
Situação: 1 falta injustificada na semana.
- Desconto do dia: R$ 100,00
- Perda do DSR (quando aplicável pelo Art. 6º): R$ 100,00
Total do impacto (exemplo): R$ 200,00
Observação: o exemplo acima é propositalmente simples para ilustrar a lógica “dia + DSR”. O DP deve usar o critério de cálculo adotado internamente para chegar ao valor do dia/DSR, mas a base legal do efeito (perda do DSR por falta injustificada) é o Art. 6º da Lei 605/49.
3) Penalidades: como escolher entre advertência verbal e escrita
A empresa pode aplicar medidas disciplinares. Para padronizar sem complicar, use dois critérios internos:
- Proporcionalidade: resposta compatível com o impacto e com o histórico.
- Imediatidade interna: aplique a medida logo após confirmar que a falta foi injustificada (evite “guardar” o problema sem motivo).
3.1 Quando a falta repetida vira desídia (Art. 482, “e”)
A desídia é caracterizada pela repetição de faltas leves e descumprimentos no dia a dia. Se a falta injustificada vira rotina e você consegue demonstrar reiteração com histórico, pode embasar justa causa por desídia, conforme Art. 482, alínea “e” da CLT.
3.2 Abandono de emprego: o que a Súmula 32 do TST diz
A Súmula nº 32 do TST presume abandono se o trabalhador não retornar ao serviço em 30 dias após a cessação do benefício previdenciário ou ausência injustificada, nas situações tratadas pela súmula.
Na prática de DP: se a ausência está se prolongando, documente tentativas de contato e convocações desde o início (ver seção 5).
4) Registro no ponto: como fazer do jeito que “para em pé”
A Portaria MTE nº 671/2021 disciplina o registro eletrônico de ponto. Para este tema (falta injustificada), o que interessa é o aspecto prático: um registro eletrônico consistente ajuda a comprovar a ausência caso a empresa precise demonstrar o ocorrido.
Fonte oficial (ato correto): https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-mtp-n-671-de-8-de-novembro-de-2021-359094139
Rotina simples de lançamento (DP)
- No dia da ausência: lance como “Falta” (sem fechar como justificada/injustificada antes de checar enquadramento e documentos).
- Se o empregado comprovar e enquadrar: altere para “Falta justificada” e anexe o comprovante.
- Se não comprovar ou não enquadrar: finalize como “Falta injustificada”.
O que arquivar junto (mínimo viável):
- espelho de ponto do período;
- escala/jornada aplicável;
- registro interno da ocorrência (data, turno, local, gestor responsável).
5) Tentativas de contato: como documentar sem virar “novela”
Você não precisa “caçar” o empregado. Precisa mostrar que a empresa agiu de forma organizada.
Roteiro prático de contato (com responsáveis)
- No mesmo dia (gestor): mensagem/ligação curta perguntando o motivo e orientando a regularização.
- No dia útil seguinte (DP): e-mail formal pedindo justificativa e orientando retorno.
- Se a ausência continuar (DP): carta com AR convocando retorno/justificativa.
Como guardar prova:
- print do WhatsApp (com data/hora);
- cópia do e-mail enviado;
- cópia da carta e comprovante do AR.
6) Casos práticos (o que fazer + o que descontar + qual advertência)
Caso 1 — 1ª falta sem justificativa (isolada)
Cenário: empregado não comparece na terça-feira e não apresenta justificativa enquadrada no Art. 473.
Fluxo (gestor + DP):
- Gestor registra a ausência e aciona o DP.
- DP lança “Falta” no ponto e solicita justificativa.
- No retorno, DP confere enquadramento no Art. 473 e fecha a classificação.
Descontos:
- dia da falta;
- DSR, quando aplicável, por ser falta injustificada (Lei 605/49, Art. 6º).
Medida disciplinar sugerida:
- advertência verbal com registro interno (data, motivo, responsável).
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Caso 2 — Reincidência (histórico começando a se formar)
Cenário: empregado falta novamente sem justificativa válida.
Fluxo:
- Repete registro no ponto + contato.
- DP consolida evidências (ponto/escala + contatos + datas).
Descontos:
- dias das faltas;
- DSR, quando aplicável, por falta injustificada.
Medida disciplinar sugerida:
- advertência escrita para formalizar o histórico.
Por que isso importa:
- a repetição pode caracterizar desídia (Art. 482, “e”).
Caso 3 — Falta injustificada na semana do DSR (para evitar erro no fechamento)
Cenário: empregado falta sem justificativa em uma semana normal de trabalho com DSR previsto.
Fluxo:
- DP guarda a escala da semana.
- DP fecha a falta como injustificada (se não houver enquadramento no Art. 473).
- DP aplica desconto do dia e avalia o DSR conforme Art. 6º da Lei 605/49.
Medida disciplinar sugerida:
- primeira ocorrência: verbal ou escrita (conforme impacto e histórico);
- com histórico: escrita.
7) Modelo curto de advertência escrita (campos + exemplo)
A advertência precisa ser objetiva: o que aconteceu, quando, e qual conduta é esperada.
7.1 Campos (modelo)
- Empresa:
- Empregado:
- Cargo/Setor:
- Data(s) da ocorrência:
- Descrição objetiva do fato:
- Orientação/conduta esperada:
- Reincidência (sem prometer punição específica):
- Local e data:
- Assinatura do empregado (ciência):
- Assinatura do responsável:
- Testemunhas (se houver recusa):
7.2 Exemplo preenchido (curto)
ADVERTÊNCIA DISCIPLINAR (ESCRITA)
- Empresa: Alfa Serviços Ltda.
- Empregado: João da Silva
- Cargo/Setor: Auxiliar de Operações
- Data da ocorrência: 12/08/2026
- Descrição do fato: Ausência ao trabalho na data acima, sem apresentação de justificativa enquadrada no Art. 473 da CLT.
- Orientação: Comparecer regularmente ao trabalho e comunicar gestor/DP quando houver impossibilidade de comparecimento, apresentando justificativa quando aplicável.
- Reincidência: A repetição de ausências injustificadas poderá resultar em novas medidas disciplinares, conforme avaliação da empresa.
Local e data: São Paulo, 13/08/2026
Empregado (ciência)
Responsável (empresa)
8) Roteiro de conversa para advertência verbal (direto)
- Fato: “Você faltou no dia __.”
- Checagem: “O que aconteceu? Você tem justificativa/documento?”
- Regra: “Se não se enquadrar nas hipóteses do Art. 473, a falta fica como injustificada.”
- Impacto: “Isso afeta escala, ponto e fechamento.”
- Combinado: “Se não puder vir, avise o quanto antes e regularize a justificativa.”
- Medida: “Hoje fica advertência verbal. Se repetir, formalizamos por escrito.”
9) Férias: efeito de faltas injustificadas (Art. 130 da CLT)
O Art. 130 da CLT reduz os dias de férias quando o empregado tem mais de 5 faltas injustificadas no período aquisitivo.
| Faltas injustificadas no período aquisitivo | Dias de férias (Art. 130 da CLT) |
|---|---|
| Até 5 | 30 |
| 6 a 14 | 24 |
| 15 a 23 | 18 |
| 24 a 32 | 12 |
10) Recusa em assinar advertência: como registrar
Se o empregado se recusar a assinar, o objetivo é comprovar ciência.
Procedimento prático:
- leia o documento para o empregado;
- registre no próprio documento: “Empregado recusou-se a assinar, após leitura.”;
- colha assinatura de duas testemunhas;
- arquive junto com espelho de ponto, escala e registros de contato.
Checklist final (DP) — falta injustificada e advertência (1 página)
Use como padrão interno. Ajuste nomes de áreas conforme sua empresa.
A) No dia da ausência
- Gestor (responsável):
- confirma ausência no início do turno
- tenta contato (ligação/WhatsApp) e registra data/hora
- informa o DP
- DP (responsável):
- lança no ponto como “Falta” (ainda sem fechar como justificada/injustificada)
- salva evidências do dia: espelho/registro + escala/jornada
B) No dia útil seguinte (se não houve retorno/justificativa)
- DP:
- envia e-mail formal solicitando justificativa e orientando retorno
- registra o envio (cópia do e-mail)
C) Quando o empregado retorna (ou apresenta justificativa)
- DP:
- confere enquadramento no Art. 473 da CLT
- anexa comprovantes (quando houver)
- fecha no ponto: falta justificada ou falta injustificada
- Gestor + DP:
- decide medida: verbal (registro interno) ou escrita (documento assinado/ciência)
D) No fechamento da semana/folha
- DP:
- aplica desconto do dia de falta injustificada
- verifica reflexo no DSR conforme Art. 6º da Lei 605/49 (quando aplicável)
- arquiva “pacote” do caso: ponto + escala + contatos + advertência
E) Se a ausência se prolongar
- DP:
- formaliza convocação por carta com AR
- mantém dossiê cronológico (ponto + contatos + AR)
- considera o que a Súmula 32 do TST trata para situações específicas de presunção de abandono
Como o PontoBarato ajuda (CTA sutil)
Quando o DP tem ponto eletrônico bem organizado, com espelho, ocorrências e histórico por colaborador, fica mais simples comprovar ausências e padronizar advertências. O PontoBarato pode apoiar sua rotina de registro e consolidação dessas informações — alinhado às regras do registro eletrônico de ponto tratadas na Portaria MTE nº 671/2021.
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